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CiclismoEstudo

Mapeamento inédito traça o perfil de lesões e doenças no ciclismo competitivo

Publicado em 29 de outubro de 2026

O ciclismo competitivo reúne modalidades muito diferentes entre si — estrada, mountain bike (MTB), pista, BMX e paraciclismo —, cada uma com terreno, duração de prova e padrão de risco próprios. Apesar disso, a pesquisa sobre lesões e doenças no esporte historicamente tratou essas modalidades de forma pouco padronizada, misturando definições de lesão e formas distintas de medir incidência, o que dificultava saber se o risco de uma etapa de BMX é de fato comparável ao de uma prova de estrada. A União Ciclística Internacional (UCI) colocou a vigilância de lesões e doenças como prioridade da sua Agenda 2030 justamente para preencher essa lacuna e orientar estratégias de prevenção com base em evidência.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no BMJ Open Sport & Exercise Medicine, registrada previamente no PROSPERO, buscou organizar esse cenário. A busca cobriu as bases MEDLINE, Embase e SPORTDiscus até agosto de 2024, somada a busca manual de referências e literatura cinzenta, reunindo estudos epidemiológicos sobre lesão e/ou doença em ciclismo competitivo (excluindo cicloturismo recreativo e estudos focados numa lesão específica, como só concussão). A qualidade de cada estudo observacional foi avaliada pela ferramenta do NIH para estudos de coorte e transversais, e uma meta-análise por modalidade foi conduzida apenas com os estudos cujo desenho e definições seguiam o consenso do Comitê Olímpico Internacional (COI) para ciclismo.

Entraram 44 estudos, cobrindo cinco das dez modalidades competitivas reconhecidas pela UCI — estrada, mountain bike, pista, BMX e paraciclismo; ciclocross, gravel, ciclismo indoor, trials e esports ainda não têm nenhum estudo epidemiológico publicado. O BMX teve a maior taxa de lesão, com 4,59 lesões por 365 dias de atleta (intervalo de confiança de 95% entre 4,34 e 4,85), e o paraciclismo teve a maior prevalência de doenças, com 3,89 casos por 365 dias (IC 95%: 3,42–4,36). Em quase todas as modalidades, o membro superior foi a região mais lesionada — 65,21% das lesões no BMX, 48,32% na estrada e 44,18% na pista —, um padrão oposto ao visto em esportes de campo e no atletismo, onde o membro inferior costuma predominar.

Lacerações, abrasões e outras lesões de pele foram o tipo de lesão mais comum na maioria das modalidades, seguidas por fraturas ósseas, mais prevalentes no ciclismo de estrada (17,84% das lesões). A estrada teve a maior proporção de lesões na cabeça, face e pescoço (14,36%), mas, curiosamente, a menor incidência de concussão entre as modalidades (4,68%) — o oposto da pista, onde a concussão chegou a 13,85% das lesões registradas. Quanto a doenças, o quadro mais comum no ciclismo de estrada foi gastrointestinal (17,90%), enquanto a respiratória predominou na pista e no mountain bike (31,82% em ambas), com fator ambiental não relacionado ao exercício — como viagens internacionais, mudança de clima, água e comida — como principal causa apontada pelos autores.

Na prática, os achados sugerem medidas de prevenção específicas por modalidade. Para quem treina ciclistas de estrada e mountain bike, os próprios autores recomendam incluir treino de força com carga na rotina, especialmente na pré-temporada, para proteger a densidade óssea e reduzir o risco de fratura — ligado, segundo eles, à busca por relação peso-potência muito baixa, que pode elevar o risco de deficiência energética relativa no esporte (RED-S). Para todas as modalidades, vale dar atenção a vestimenta com reforço nos pontos mais expostos a queda, a lesões de pele como assaduras na região do selim, e a protocolos de reconhecimento de concussão — com destaque para a pista, onde ela apareceu com mais frequência. Equipes com calendário internacional também se beneficiam de reforçar higiene das mãos e cuidado com água e alimentos em viagem, além da triagem cardiovascular já exigida pela UCI em nível profissional, para reduzir o impacto de doenças gastrointestinais, respiratórias e cardiovasculares sobre a temporada do atleta.

As limitações: apenas 5 das 10 modalidades competitivas de ciclismo têm pesquisa epidemiológica publicada, e o paraciclismo, apesar de registrar a maior prevalência de doença, ainda carece de dados detalhados sobre tipo e local de lesão. A heterogeneidade entre os estudos incluídos nas meta-análises por modalidade foi alta em todos os casos, refletindo diferenças na definição de lesão, na forma de medir incidência e no nível dos atletas entre os estudos, e a amostra dessas meta-análises se restringiu a atletas profissionais, o que limita a extrapolação para ciclistas amadores. Os próprios autores pedem mais estudos seguindo o consenso do COI de 2021 para ciclismo, com atenção específica a atletas mulheres e paraciclistas, ainda sub-representados na literatura.

Referências