Calçado minimalista — sola fina, pouco ou nenhum amortecimento e sem elevação do calcanhar — virou tendência entre corredores nos últimos anos, puxado pela promessa de estimular um padrão de corrida mais "natural": pisada mais à frente do pé (antepé), passadas mais curtas e, supostamente, menor dependência do amortecimento artificial do tênis tradicional. O problema é que trocar um calçado bem amortecido por um modelo minimalista muda de forma abrupta a mecânica da corrida, e não estava claro, de forma consolidada na literatura, se essa transição reduz o risco de lesão ou se ela mesma se torna uma fonte de lesão.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na revista Gait & Posture, seguindo as diretrizes PRISMA 2020, buscou responder isso. A busca cobriu bases de dados internacionais ao longo dos últimos 15 anos, incluindo ensaios clínicos randomizados e estudos de coorte prospectivos. Os critérios de elegibilidade exigiam corredores saudáveis sem experiência prévia com calçado minimalista e um período de transição de pelo menos quatro semanas. O tamanho do efeito foi estimado por um modelo de efeitos fixos, e a heterogeneidade entre os estudos, avaliada pelo teste Q de Cochran e pela estatística I².
Doze estudos entraram na síntese qualitativa, e sete deles, somando 313 participantes, entraram na meta-análise quantitativa. A transição para calçado minimalista se associou a um aumento moderado no risco de lesão, com tamanho de efeito combinado de 3,529 (intervalo de confiança de 95% entre 2,41 e 4,646) e heterogeneidade baixa entre os estudos — ou seja, um resultado consistente entre os diferentes protocolos incluídos. As lesões mais relatadas foram edema de medula óssea na região do metatarso, tendinopatia de Aquiles e dor na panturrilha, ligadas à adoção do padrão de pisada no antepé.
Na prática, o recado não é que o calçado minimalista deva ser evitado, e sim que a transição para ele precisa ser conduzida com cautela. Os próprios autores apontam que programas de readaptação supervisionados, com duração de pelo menos 12 semanas, parecem favorecer a adaptação progressiva do sistema musculoesquelético e reduzir o risco de lesão. Para treinadores, isso sugere introduzir o calçado minimalista de forma bem gradual — aumentando o volume de uso lentamente, de preferência com acompanhamento profissional — e dar atenção extra ao antepé e ao tendão de Aquiles nas primeiras semanas, já que são os pontos mais sobrecarregados nesse processo.
As limitações: a meta-análise reuniu apenas sete estudos e 313 participantes, amostra pequena para um tema tão discutido entre corredores. O modelo de efeitos fixos usado assume menos variabilidade real entre os estudos do que um modelo de efeitos aleatórios, o que pode ter deixado a estimativa de efeito mais estreita do que a realidade. Os próprios autores também reconhecem heterogeneidade nos protocolos de transição usados entre os estudos incluídos. Mais ensaios controlados, com amostras maiores e protocolos de transição padronizados, ainda são necessários para definir qual é a velocidade ideal de adaptação ao calçado minimalista.


