A natação competitiva impõe uma demanda particular sobre o sistema respiratório: o padrão de respiração é restringido pela mecânica do nado, já que o atleta só consegue inspirar em janelas curtas e específicas do ciclo de braçada, diferente do que ocorre em modalidades terrestres. Por isso, o treino muscular respiratório (RMT, na sigla em inglês) — exercícios específicos para fortalecer os músculos inspiratórios, expiratórios ou ambos, geralmente com dispositivos de carga ajustável — vem sendo proposto como forma de otimizar a função respiratória e, por consequência, o desempenho do nadador. O problema é que os estudos sobre o tema vinham mostrando resultados inconsistentes entre si, sem uma síntese clara sobre em que esse treino realmente ajuda.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na Frontiers in Physiology, com protocolo registrado previamente no PROSPERO, buscou organizar essa evidência. A busca cobriu oito bases de dados desde o início dos registros até 26 de setembro de 2025, atrás de estudos com nadadores competitivos ou de elite submetidos a RMT (inspiratório, expiratório ou combinado) por pelo menos quatro semanas, comparados a um grupo controle que recebeu RMT simulado (placebo) ou treino padrão. Os desfechos avaliados foram desempenho na natação, força da musculatura respiratória e função pulmonar, com qualidade metodológica avaliada pela ferramenta RoB 2.0 da Cochrane e certeza da evidência pelo sistema GRADE.
Entraram 14 estudos, somando 375 nadadores competitivos. O RMT melhorou de forma estatisticamente significativa a pressão inspiratória máxima (tamanho de efeito de 0,65; intervalo de confiança de 95% entre 0,29 e 1,01), alguns parâmetros dinâmicos de função pulmonar — volume expiratório forçado no primeiro segundo (tamanho de efeito de 0,45; IC 95%: 0,19 a 0,72) e volume inspiratório forçado no primeiro segundo (tamanho de efeito de 0,41; IC 95%: 0,04 a 0,79) — e o desempenho aeróbio na natação (tamanho de efeito de 1,02; IC 95%: 0,03 a 2,00).
Por outro lado, o RMT não melhorou de forma significativa a pressão expiratória máxima (tamanho de efeito de 0,16; IC 95%: -0,14 a 0,46), outros parâmetros de função pulmonar como capacidade vital forçada e ventilação voluntária máxima, nem o desempenho em provas de velocidade e meio-fundo (tempos de 50 m, 100 m e 200 m livre). Os autores também observaram que o treino combinado (inspiratório e expiratório juntos) teve eficácia superior ao treino inspiratório isolado para os desfechos de função respiratória.
Na prática, o estudo sugere que o RMT vale mais a pena como complemento de preparação para provas aeróbias e de fundo do que para provas curtas de velocidade, onde a evidência não mostrou ganho de desempenho. Para treinadores de natação, isso aponta para incluir protocolos de RMT combinado (inspiratório e expiratório), com duração mínima de quatro semanas, na rotina de nadadores de meio-fundo e fundo, como adição ao treino convencional na água — sem esperar o mesmo efeito em especialistas de 50 m e 100 m, cujo desfecho de desempenho não foi significativamente afetado nos estudos incluídos.
As limitações: os próprios autores apontam heterogeneidade alta entre os estudos incluídos, refletindo diferenças de protocolo, dispositivo usado e nível dos atletas, o que exige cautela na generalização dos tamanhos de efeito. A amostra de 375 atletas em 14 estudos ainda é relativamente pequena para um tema com tanta variação metodológica, e os autores pedem ensaios futuros com desenho "load-matched" — ou seja, equiparando a carga de treino entre grupo RMT e grupo controle — para isolar com mais clareza o efeito independente do treino muscular respiratório sobre o desempenho na natação.


